Durante quase seis décadas, o Grumman C-2A Greyhound desempenhou uma das missões mais discretas, mas também mais importantes da aviação naval norte-americana. Responsável pelas missões de Carrier Onboard Delivery (COD), assegurava diariamente a ligação entre as bases em terra e os porta-aviões da U.S. Navy, transportando pessoal, correio, peças sobressalentes, motores aeronáuticos e outro material indispensável ao funcionamento de um grupo de batalha naval. Em junho de 2026, esta notável aeronave realizou a sua última aterragem e a sua última descolagem por catapulta de um porta-aviões, encerrando uma carreira operacional com cerca de sessenta anos. Ao conhecer esta notícia, foi inevitável recordar uma das experiências mais marcantes da minha vida enquanto fotógrafo e jornalista de aviação.
Tudo aconteceu em outubro de 2012.
Nessa altura tive o privilégio de embarcar num C-2A Greyhound no Aeroporto Internacional do Bahrain com destino ao porta-aviões USS John C. Stennis (CVN-74), que navegava no Mar Arábico, na companhia do meu amigo J. Munkelt Gonçalves. Era uma oportunidade única para acompanharmos, durante dois dias, a atividade operacional de um dos maiores navios de guerra do mundo, numa fase em que participava nas operações de apoio às forças dos Estados Unidos e da NATO destacadas no Afeganistão.
O voo até ao porta-aviões foi, por si só, uma experiência extraordinária. Depois de abandonar a costa do Bahrain e sobrevoar o Mar Arábico, a imensidão azul deu lugar a uma pequena silhueta cinzenta no horizonte. À medida que nos aproximávamos, tornava-se impressionante perceber como uma cidade flutuante emergia do oceano. Poucos minutos depois vivi, pela primeira vez, uma aterragem enganchada num porta-aviões. O impacto no convés, seguido da brusca desaceleração provocada pelo cabo de retenção, foi uma sensação impossível de descrever plenamente. Em apenas alguns segundos, o avião passava de uma velocidade superior a 200 km/h para a imobilização total.
Durante a permanência a bordo do USS John C. Stennis tivemos a oportunidade de testemunhar de perto o extraordinário ritmo operacional do convés de voo. Caças descolavam e aterravam praticamente sem interrupção, helicópteros cumpriam as suas missões de apoio e vigilância, enquanto os E-2C Hawkeye asseguravam a vigilância aérea do grupo de batalha. Cada movimento obedecia a uma coordenação absolutamente rigorosa, onde centenas de militares desempenhavam funções perfeitamente sincronizadas num ambiente exigente, ruidoso e, simultaneamente, fascinante.
Para mim, um dos aspetos mais gratificantes desta visita foi poder fotografar toda esta atividade operacional. Ao longo daqueles dois dias tive acesso a cenários que poucos civis têm oportunidade de observar tão de perto: as operações de voo, a preparação das aeronaves, o trabalho das equipas de manutenção e a intensidade permanente que caracteriza um porta-aviões em missão. Cada fotografia captada tornou-se um registo documental de uma realidade que dificilmente se repete.
Mas a aventura ainda reservaria um último momento inesquecível.
No regresso ao Bahrain voltámos a embarcar no mesmo C-2 Greyhound. Desta vez, a emoção começou antes mesmo da descolagem. Posicionado na catapulta do porta-aviões, o avião aguardou apenas alguns segundos até que toda a potência dos motores estivesse estabilizada. Num instante, fui literalmente projetado para a frente quando a catapulta lançou a aeronave do convés para o céu. A aceleração é brutal, impossível de comparar com qualquer descolagem convencional. Em poucos segundos, deixávamos para trás o USS John C. Stennis e regressávamos ao continente, terminando uma aventura que permanecerá para sempre entre as experiências mais extraordinárias que alguma vez vivi.
Foi por isso que acompanhei com alguma emoção a notícia do fim da carreira operacional do C-2 Greyhound. No passado dia 25 de junho de 2026, um aparelho do VRC-40 "Rawhides" efetuou a última aterragem enganchada e a derradeira descolagem por catapulta de um Greyhound a bordo do porta-aviões USS Nimitz (CVN-68). A missão logística passou agora a ser assegurada pelo CMV-22B Osprey, encerrando definitivamente um capítulo iniciado em meados da década de 1960.
Para a maioria das pessoas, o Greyhound era apenas um avião de transporte. Para mim, será sempre muito mais do que isso. Será a aeronave que me abriu as portas de um porta-aviões da U.S. Navy em plena missão operacional, permitindo-me viver, durante dois dias, uma experiência absolutamente única e testemunhar de perto uma das mais impressionantes demonstrações de poder naval da atualidade.
Agora que o C-2 Greyhound passou definitivamente à história, dou ainda mais valor à oportunidade que tive de voar naquela aeronave. Sem o saber, vivi um pequeno pedaço da história da aviação naval norte-americana. Hoje, essas recordações, bem como as fotografias captadas a bordo do USS John C. Stennis, ganharam um significado ainda mais especial, tornando-se o testemunho de uma aeronave que, durante sessenta anos, ligou o mar à terra e acompanhou praticamente todas as grandes operações da U.S. Navy. Fiquem bem, Jorge Ruivo























